domingo, 27 de outubro de 2019

Joba Tridente: Torturas Capitais



TORTURAS   CAPITAIS
confessadas por Joba Tridente

Recentemente me desfiz de grande quantidade de material reciclável, principalmente pela falta de espaço, já que motivação artística (mesmo sem retorno financeiro!), de uma forma ou de outra, a gente dá um jeito. Toda via da arte insana, no entanto, guardei, entre outras peças, sete proteções de equipamentos eletroeletrônico moldadas em papelão rugoso. Esperava extrair delas algo mais lúdico e ou mesmo zen, como os trabalhos mais alegres que tenho realizado ultimamente (talvez porque estes sejam de mais fácil aceitação). 



ELABORAÇÃO

Certa manhã, olhei para uma das proteções e vi um Boi de Folia (Boi-Bumbá, Boi de Fumaça, Boi de Mamão etc), e o pintei. Numa outra peça o meu cérebro decifrou uma Esfinge Grega, em detrimento de outras imagens que também queriam forma, e a pintei (para não ser devorado). Eu, então, já tinha duas peças e duas histórias míticas. Porém, ao pegar as outras cinco proteções, para sentir (no olhar e na memória) o que elas me desvelariam, possivelmente tomado pelo sentimento de repulsa às cicatrizes da intolerância e do ódio que estão se abrindo no Brasil e no mundo (ou atento à insatisfação dos meus iconoclastas Tico e Teco), vi ali sessões de Censura, cenas de Inquisição, dores de Catequese, violência de Tourada... E, para minha surpresa, me dei conta de que o conteúdo das primeiras duas peças (Boi de Folia e Esfinge) tinha tudo a ver com o das cinco posteriores, comungando, assim, um tema em comum: TORTURA.

Excetuando a Esfinge, nunca pensei em algo explicitamente figurativo, por isso a hibridez de cada obra, cuja tessitura traz elementos do geometrismo, do abstracionismo, do figurativismo e do surrealismo. São camadas sobre camadas de tinta acrílica e verniz vencido para conseguir o efeito de envelhecimento, de peças empoeiradas esquecidas nos profundos porões das instituições opressoras, e apressadamente limpas, na tentativa de falsear os repugnantes atos de horror.

Todas as peças estão à venda, mas gostaria de expor antes, em um espaço neutro (no Brasil e ou exterior), para que qualquer espectador (com ou sem ideologia cultural, política e religiosa) possa observar e refletir a respeito de cada uma..., quem sabe junto com os Sagrados e Profanos, trabalhos mais antigos, em bico de pena, que também falam da minha insatisfação diante das regras religiosas e políticas estabelecidas.


E S F I N G E






ESFINGE: A representação é a da Esfinge Grega: cabeça de mulher, corpo e cauda de leão alado e unhas de harpia, que ameaçava (tortura psicológica e física) os transeuntes: Decifra-me ou devoro-te!..., propondo o seguinte enigma: Que criatura tem quatro pés de manhã, dois à tarde e três à noite? Édipo foi o único que acertou: o Homem! Na peça, o enigma da esfinge!


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B O I   D E   F O L I A

 






BOI DE FOLIA: A tortura psicológica está no sofrimento de Chico, para atender o desejo da mulher grávida (que queria comer língua de boi). A tortura física está no sofrimento do Boi-Bumbá, que perdeu a língua e a vida (ainda que tenha ressuscitado), para atender a um capricho humano. As fitas coloridas são apenas disfarces da estupidez!


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 T O U R A D A

 









TOURADA: Aqui a tortura física do Touro me parece óbvia. Na representação: a arena, os espadins, o toureiro, o touro, a violência do espetáculo...  São duas peças! Uma espelha a outra (ou não) em dupla.


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 I N Q U I S I Ç Ã O








INQUISIÇÃO: O que a religião faz a quem discorda dos seus preceitos (por mais obtusos que sejam), não tem limites..., e muito menos perdão. Que o diga Giordano Bruno (1548-1600). Na peça, a tortura física e psicológica está representada na aflição do supliciado em nome de Cristo.


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  C A T E Q U E S E





CATEQUESE: A imposição da religião cristã, aos nativos dos países invadidos, sempre me pareceu uma tortura psicológica e física sem precedentes. Tira-se dos povos “vencidos” o Paraíso Real em troca de um Paraíso Abstrato..., não sem muita dor e ou perdas de vida no massacre cultural.
  

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 C E N S U R A







CENSURA: Cala-Te! Aqui não há o que dizer!


NOTA: A princípio pensei em desvelar cada peça, detalhar os símbolos, falar o que há embaixo do concreto ou escondido sob o musgo, facilitar a leitura de cada visitante. Mas, para não subestimar a inteligência de quem quer que seja, e muito menos impor a minha visão idiossincrática do mundo ao meu redor, achei melhor deixar que cada um faça a leitura de cada obra conforme os seus conceitos de Tortura (cultural, política, religiosa). Se não conseguir apreciar (ou decifrar) os detalhes, aprecie o todo. Pode ser que as peças tenham alguma outra mensagem oculta que só faça sentido para você! Ou não!

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criação e fotos de Joba Tridente.2019
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Joba Tridente: Artista Plástico - Individuais: 1991 - Sagrados e Profanos - Hall da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná - Curitiba-PR; 1986 - Sagrados e Profanos - Galeria “B” da Fundação Cultural do Distrito Federal - DF; 1984 - Arteveste - Galeria Jegue Elétrico - DF; 1983 - I Comício Cósmico de Brasília - Centro Cultural Le Corbusier – DF e Arte Alternativa II e III - Galeria Jegue Elétrico - DF; 1982 - Arte Alternativa - Galeria Jegue Elétrico – DF. Artista Plástico - Coletivas: 2018 - Brinquedos do Brasil - Invenções de muitas mãos - SESC/Itinerante. 2015 - Bench Artes - São Paulo-SP; Nem Tudo Termina em Pizza - São Paulo-SP. 2013 - Mail Art Cupcake - MuBE - Museu Brasileiro de Escultura. 2000 - Fandango Subindo a Serra - SESC da Esquina - Curitiba-PR.  1997 - Guido Viaro, 100 Anos: Interpretação 97 - Museu de Arte do Paraná - Curitiba - PR. 1996 - V Concurso de Presépios - Memorial da Cidade de Curitiba - PR; 1994 (itinerante: 1995/1996) - Suite Vollard, Picasso - Uma Interpretação Paranaense - Museu de Arte do Paraná - Curitiba - PR; 1987 - Salão de Artes Plásticas de Brasília - Galeria da Fundação Cultural do Distrito Federal - DF e Levante Centro-Oeste - Galeria da Fundação Cultural do Distrito Federal - DF; 1986 - Salão de Artes Plásticas de Brasília - Galeria “B” da Fundação Cultural do Distrito Federal - DF; 1983 - I salão de Arte Mística/Mítica/Mediúnica - Hall da Prefeitura Municipal de Petrópolis - RJ e II Salão de Arte Mística/Mítica/Mediúnica - Centro de Convenções de Brasília - DF; 1977 - II Salão de Arte e Pensamento Ecológico - Touring Club de Brasília - DF; 1974 - I Encontro de Artes do ABC - Hall do Teatro Municipal de São Bernardo do Campo - SP. Artes Gráficas, Humor e Quadrinhos: 1997 - 1ª Mostra da Ilustração Paranaense - Museu de Arte Contemporânea do Paraná - Curitiba - PR; 1993 - Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro - RJ; 1991 - Arkivo Gráphico - Gibiteca de Curitiba - PR; 1980 - Brasília 20 Anos - Hall do SESC - DF e  Caricatura e Desenho de Humor de Ontem e de Hoje - Criatura-I - Exposição itinerante organizada pela FUNARTE em: DF/SP/RJ/BA/CE/PR; 1977 - II Salão de Humor de Brasília - Fundação Cultural do Distrito Federal - DF; 1976 - Salão de Humor de Brasília - Fundação Cultural do Distrito Federal - DF.

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